Ponto a Ponto se une um Conto

Olá queridos Leitores e queridas Leitoras!
Hoje em festejos de halloween, convido-os à leitura do excerto de um conto bem ao jeito português para ler no aconchego da lareira, ao tomar o café, para o intervalo da manhã ou à hora de almoço!
A história desenrola-se em cenário inspirado numa pitoresca localidade minhota, onde recentemente o meu coração começou a ganhar raízes. Neste conto a protagonista é uma criança, num tema que me é tão querido pela sua inocência e imaginação.
Espero que gostem e expressem os vossos comentários, eu agradeço com carinho.
Bjs
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O Outro Lado do Rio
A menina tinha o nome da flor. Nome fresco, radioso, que rima com o sentimento amor, toda ele carinhoso. Nome pequeno, ajeitado, mimosinho de candura, tal como ela pequena, de mãozitas curiosas, olhos aguados de luz e rio, cabelos ondulantes a bordejarem à volta daquela pequena cabeça, onde viviam os sonhos e onde cresciam as histórias.
Naquele dia frio e radioso, encoberto pela sombra da laranjeira em flor, a menina recebeu a notícia que lhe roeu o semblante luminoso, pintalgado de malandras sardas alaranjadas. Meteu-se nela mesma, até a alma vislumbrar, remexeu na memória fresca em busca dos últimos momentos em que passara com a avó!
— Por que têm de partir os velhinhos? Nessa viagem sem retorno? Dizem que foi para o céu! Mas acho que não, não é aí que ela está!
E voltava a fechar-se nela, mais encerrada que uma cicatriz, impenetrável como a pequena caixa de cânfora da sua querida avó onde eram guardados os segredos, o arcano do quarto que dormia lânguido na velha cómoda. Foi para lá que a menina se guardou, longe dos olhares, das penas e dos choros, dos olhos compadecidos pela sua perda. Deitou-se na cama fofa, ainda impregnada pelos cheiros doces da anciã. Adormeceu e embalada pelo sonho feliz, partiu de mão dada com a idosa mulher que tantas vezes lhe cantara a melodia, envolvendo-a no regaço e no amor que lhe adoçava o ser.
Quando acordou, reconfortada pela cálida ilusão, tomou a pequena caixa entre as mãos e abriu-a, sentiu um arrepio pelo corpo tenro sabendo ser transgressão, mas a avó disse-lhe no sonho que a abrisse, era dela a caixinha segredosa. O rosto espantou-se ao ver tão singelo objeto. Nascido natural, sem mão que o torneasse, tão perfeito, tão redondo, nem o mundo é assim! Pegou com cuidado extremoso a pedra rolada, de verde aguado tal como o seu olhar. Tomou-lhe o peso e afagou-a com meiguice, mirou-a com minúcia, rolou-a na palma da mão e finalmente cheirou-a! O odor a água, ao rio que lhe ajeitou a forma invadiu-lhe as narinas e despertou nela uma lembrança, que escondida bem fundo na memória queria esquivar-se a ver a luz do dia, ao ser obrigada pela incessante inspiração. Arrancada do seu esconderijo a lembrança surgiu como um lampejo! A menina recordou o que aquele odor impregnava! A avó contava-lhe muitas histórias sobre o rio, as lendas do lugar e as vidas que por lá passavam tal como o correr da água. No verão corre calma e serena, sem nunca se incomodar, no inverno alterada, afoita e insensível.
Assim como o rio seu progenitor, o formoso seixo mantinha-se fresco nas mãos da criança fazendo esta querer ser bem pequenina e nele se enroscar, viver na memória onde a sua querida avó ainda a acariciava e lhe contava histórias, onde lhe tecia o lenço e fazia doces de figos. Refrescar-se nesse fresco odor, nadar nesse verde água que a chamava e lhe segredava algo que ela não entendia. Eram as saudades que a vinham visitar, atormentando-a no seu pequenino ser de criança, inocente e imaculado.
Continua

Tão lindo! Quase fui transportada para lá, pena não ter continuado.
ResponderEliminarAguardo com expectativa a continuação querida Olga.
Um beijo imenso
Carla
Mais um conto que promete ser uma excelente leitura.
ResponderEliminarRecordei-me da minha infância, também perdi a minha avó quando era pequena.
Está a revelar-se uma grande contadora de história querida Olga.
Um abraço da leitora Margarida
Olá Carla!
ResponderEliminarAgradeço a simpatia e por seres leitora assídua.
Bjs
Olá Margarida!
ResponderEliminarMuito grata pelas palavras e fico sensibilizada pelo seu testemunho, é isso mesmo que pretendo que a minha escrita transmita: lembranças, saudade, momentos felizes, afetos e muita ternura.
Bjs
Querida, Olga! Storytelling no seu melhor - uma revelação! Acompanharei com expectativa...
ResponderEliminarMário
Finalmente começas a revelar o teu dom apenas partilhado com os mais próximos... em frente é o caminho! Coisas boas se perspectivam.
ResponderEliminarJorge
Encantada com a sua escrita, Olga!
ResponderEliminarKate
Lindo! Que bom que é recordar as memórias daqueles que amamos e fisicamente já não estão entre nós! Beijinhos😊
ResponderEliminarComo me identifico com esta estória...
ResponderEliminarAnsiosa pelo desenvolvimento.
Júlia
Obrigada Mário! Agradeço a preferência e as simpáticas palavras.
ResponderEliminarAbraço
Sempre a apoiar-me e a incentivar-me. Agradeço do coração todo o amor e carinho!
ResponderEliminarObrigada Kate!
ResponderEliminarBjs
Grata pelo feedback, fico feliz por saber que este conto traz tantas lembranças bonitas para quem o lê.
ResponderEliminarObrigada e bjs
Agradeço Júlia pelo comentário. É bom saber que se revê no conto. A história irá desenvolver-se e ramificar-se noutras histórias. Espero que goste, em breve haverá outro episódio.
ResponderEliminarBjs
Agradeço MissX, um beijinho
ResponderEliminarAmanhã já é 5ª! Adorei ler o início desta história, ansiosa pela continuação!!!
ResponderEliminarOlha aí Olga, magnífico texto, de uma sensibilidade imensa. Desejoso de continuar nessa leitura!!!
ResponderEliminarAbraço do Rui
Obrigada! Então até amanhã!
ResponderEliminarObrigada Rui!
ResponderEliminarAmanhã haverá mais um post com mais um pouco do conto.
Só agora aqui cheguei, o que é uma vantagem, porque vou já a seguir para o 2° capítulo. Muito bonito!
ResponderEliminarAgradeço a tua simpatia! Bjs
ResponderEliminarLindo, poético, um sopro de saudade da infância nesta primeira parte a convidar para a leitura do conto na íntegra... Vou voando para a seguinte.
ResponderEliminarGrata pelas palavras que adoçaram o meu coração.
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