A fonte que não o é

A Fonte de Águas Santas que deu o nome à freguesia, na cidade da Maia.
Esta fonte milenar encontra-se esquecida nas traseiras do casario que brotou, ao longo dos tempos, em frente à Igreja de Nossa Senhora do Ó. A sua origem perdeu-se na névoa dos séculos, permanecendo, no entanto, a igreja de influências românicas e a lenda que a tornou conhecida. Porém, a atual fonte já nada tem da anterior nascente que foi uma referência na localidade, tanto para os habitantes como para os peregrinos que por ali passavam rumo a Santiago de Compostela.
A construção da Igreja de Águas Santas ou de Nossa Senhora do Ó, no século XII, tem origem numa edificação antiquíssima de origem pagã, sobrevivendo ainda na parte sul o remanescente do antigo convento erigido em 974. A fonte já lá existia pois era a forma de aceder à nascente de água límpida para o antigo mosteiro.
O Dr. Joaquim Moutinho dos Santos, ilustre médico, escritor e humanista maiato, grande defensor da história da sua Maia, referiu nos seus escritos Impressões históricas, geograficas e outras variedades da freguezia de Aguas Santas de 1871e é transcrito por António Arroio no seu livro «Singularidades da Minha Terra» em 1897, sobre o que fora esta fonte:
«fonte de abobada oval em toda a sua amplitude, hermeticamente fechada, dando apenas entrada aos aljôfares de puríssima água que borbulhava do fundo, a qual estava situada no sopé do Mosteiro e, poucos anos antes, havia» sido deslocada do seu leito e transformada em uma cisterna lodosa e despojada de suas águas perennes, a ponto de seccar em tempos áridos, «destruição sacrilega esta que é o assassinato mais estúpido que encontramos na meditação da nossa historia e não podemos por elle deixar de responsabilisar a memória do parocho que então presidiu a tal offensa!»
Toda a região é rica em história. Ali perto existem as ruínas de um antigo castelo, embora não comprovado, terá sido um dos bastiões de Gonçalo Mendes da Maia. O rio Leça corre ligeiro num sinuoso caminho bordejado pelos esqueletos decrépitos de antigos moinhos. Há tanto para ver e conhecer...
As fotos da fonte datam de finais do ano passado, recentemente fui lá e encontra-se quase coberta de vegetação, embora não sendo a original pois muito foi alterada para servir a rega dos campos, dá dó vê-la ali esquecida, remetida para uma insignificância nada merecida.
Pesa-me o esquecimento e algum abandono das memórias desta terra magnífica, enfeitada por campos e solo fértil, de nascentes que correm para ribeirões onde já existiram imensos peixes que enriqueciam as mesas dos maiatos. A lavoura era a subsistência das gentes e também o vinho, o linho e os tamancos. A ruralidade ainda hoje é evidente, mas a história do berço do glorioso Gonçalo está apagado, indelével na paisagem e em monumentos que se vão aninhando nas ervas, nos escombros do esquecimento.

Estas memórias são descartáveis, não votos, não dão visbilidade, não dão likes. Vão ficando os escritos, ainda que me pareça que no futuro, ninguém lhes ligará.
ResponderEliminarE é mesmo Inês.
ResponderEliminarFica bem, uma boa semana.
Bjs
Infelizmente Vagueando.
ResponderEliminarUma boa semana
Bjs