A receita mais original de um doce de Natal

Era uma vez na véspera de Natal…
Pela cozinha estava tudo desarrumado. Uma ligeira poalha espalhara-se pelo ar, depositando-se languidamente sobre as bancadas, armários e fogão. O lava-loiça abarrotava de utensílios sujos. Taças, talheres e panos. Pela mesa, espalhadas como uma orquestra desafinada, jaziam umas tombadas outras direitas, as mais variadas formas as quais esquecera a sua existência. Um caos! Um horror…e bem junto à banca, encarrapitado no banco - ei-lo! O autor, o conquistador da cozinha que dela se assenhorara e fizera dela o seu troféu! O pirralho que ainda há pouco se revirava dentro de mim, escouceando-me, qual potro, no meu ventre, levando-me à loucura com tanto peso e cansaço.
A taça, quase maior que ele, transbordava do que parecia ser massa, cobrindo-lhe como luvas as papudas mãozitas, a roupa, o cabelo e o rosto rosado. Ao sentir-me entrar, revirou aqueles enormes olhos, embelezados pelas longas pestanas e de sorriso de orelha a orelha, disse:
— Mamã estou a fazer um doce!
Aproximei-me ligeiramente repugnada por tanta bagunça e por aquele ser pegajoso que já se colava à bancada. No entanto, não lhe resisti - a ele, ao sorriso e àquele olhar que me fazia sentir a entidade mais preciosa do mundo.
— Ai estás!? E como sabias fazê-lo?
— Foi de ver-te fazer. Aprendi a fazer o bolo para ti! Vamos pô-lo no forno?
Assenti que sim, pensando que seria um desaire. Como poderia uma criança de cinco anos fazer um doce, um bolo só de ver e ajudar a mãe?
Por sua insistência ficámos ambos sentados no chão, em frente ao forno a ver o bolo crescer, sim a farinha já tinha fermento, por sorte! Foi um tempo que achei que seria monótono, mas depois senti que fora uma bênção, aqueles quarenta e cinco minutos ao lado do meu filho a ouvi-lo falar de culinária. A culinária vista por uma criança, os doces que gostava de ver fazer e que jurava que os faria ainda melhor! Tentei mentalizá-lo que o bolo talvez não ficasse como eu o fazia, porém, o rapaz achava que seria tão delicioso como o meu. Deixei-o pensar assim.
Estava toda a família sentada à mesa, impecavelmente decorada e com as melhores iguarias natalícias. Olhei de soslaio, a um canto discreto do aparador estava o bolo tosco e coberto de chocolate, simples sem grande brilhantismo para aquela mesa.
Depois da refeição colocaram-se os doces. As rabanadas luzidias e perfumadas de canela, o bolo-rei colorido e tentador, o tronco de Natal e tantos outros, ricos visualmente e de sabor… e no meio da mesa o bolo de chocolate! A dominar a mesa de Natal impecavelmente decorada e aprimorada de irrepreensíveis doçarias.
Todos se entreolharam pela dominância do parente pobre e desajeitado.
Sentei-me, ligeiramente envergonhada. Pouco depois senti a manga ser repuxada e olhei. A meu lado estava o meu filho com um prato e a fatia do seu bolo.
— Toma mamã. Quero que sejas a primeira a provar o meu bolo!
Provei conformada, para não lhe fazer a desfeita e qual não foi a minha surpresa…o bolo até era bom!
— Sabe bem, mamã?
Todos estavam em suspenso aguardando a minha resposta. Engoli saboreando e respondi:
— Sabe sim, meu querido…
E ele tornou, sempre coladinho a mim, sentindo-lhe o calor e o cheiro do cabelo e do hálito infantil:
— Sabe a quê?
— Sabe a ti. Sabe a amor! — abracei-o intensamente, pois aquele era o melhor doce de Natal. Esta era sem dúvida a melhor receita original do doce de Natal!
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Este conto, hoje republicado, foi escrito no ano de 2020, como gosto muito dele decidi participar no desafio da Isabel, do blog Pessoas e Coisas da Vida, deste ano de Os Nossos Contos de Natal de 2021. A Isabel é a "Mãe" desta azáfama de escrita natalícia que se repete, tal como em anos anteriores, resultado: um livro de Contos de Natal recentemente publicado, como podem ver aqui.
Um dia feliz com Leituras!
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Conto Lindo e fofinho 🤩 já o tinha lido no ano passado, mas hoje soube-me melhor por causa do desenho😍
ResponderEliminarBeijos beijocas
Lurdes
A prova de que cozinhar só pode ser feito com amor!
ResponderEliminarBeijinhos
Obrigada querida Lurdes, soube-te mesmo bem
ResponderEliminarGrata pela visita, tudo de bom para o dia de hoje.
Bjs
Ora nem mais Maribel.
ResponderEliminarVotos de dia muito feliz.
Bjs
Lindo! Um conto cheio de amor e ternura! Aquece e adoça o coração!
ResponderEliminarObrigada pela partilha!
ResponderEliminarMuito obrigada minha amiga!
Fico muito contente por gostares.
Dia feliz para ti.
Bjs
Gostei tanto
ResponderEliminarQue conto maravilhoso, deixa a alma quentinha!
Beijinhos
Que conto tão fofinho e gostoso!
ResponderEliminarBoa tarde, Olga!
Beijinhos
Oh, Querida Olga, que conto tão encantador
ResponderEliminarBeijinhos
Resto de Dia Feliz
ResponderEliminarDia Feliz, Querida!
grata Sandra, fico muito feliz por teres gostado do conto.
ResponderEliminarBoa noite, tudo de bom para ti.
Bjs
[<)] obrigada amigo Cheia.
ResponderEliminarBoa noite descansadinha.
Bjs
Agradeço amiga Luísa o teu carinho.[<)]
ResponderEliminarFica bem, boa noite.
Bjs
Obrigada amiguinha, para ti uma excelente noite, dorme bem.
ResponderEliminarBjs
que bom F.A.
ResponderEliminarGrata pela visita e bom apetite para o bolinho.
Bjs
Este cheirinho a Natal que vocês me dão cada vez que publicam um conto, é maravilhoso.
ResponderEliminarJá está no rol deste ano.
Beijinho Olga, uma noite feliz.
Boa noite Isabel!
ResponderEliminarGrata amiga, é sempre um prazer participar. Ainda falta o conto deste ano, não me esqueci, digamos que...ainda está no forno
Maravilhosa és tu por nos quereres a escrever e apreciares tanto as nossas estórias.
Tudo de bom, boa noite
Bjs
opa tão lindooooo
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